vazio voraz

12.9.06

As muitas possibilidades do vazio

* Correio da Bahia 12 de Setembro
Coluna Artes Plásticas: Justino Marinho e Cesar Romero

"Enganam-se aqueles que pensam que não está existindo renovação nas artes plásticas da Bahia. Um bom exemplo de renovação pode ser visto na exposição que acontece na Galeria Solar Ferrão (Pelourinho) até 23 de setembro, reunindo oito artistas da novíssima geração. Com a denominação de Voraz vazio, os artistas Cláudia Pôssa, Fabrício Branco, Gina Leite, Jovan Mattos, Luciano Freaza, Marta Luna, Nanna Possa e Silverino Ojú formam um grupo voltado para a pesquisa em linguagens de arte contemporânea, orientados por Caetano Dias.

O grupo teve origem há dois anos, com o objetivo de desenvolver poéticas individuais como parte da oficina Processos contemporâneos, realizada no Museu de Arte Moderna da Bahia, por Caetano. O tema desenvolvido é o vazio, daí o nome do grupo. Cada um esteve à vontade para buscar sua linguagem e suas possibilidades de expressão. A partir dessa liberdade, discutiram idéias e colocaram em prática suas conclusões.

“Ao longo desse processo, as trocas se deram de forma apaixonada. As pesquisas artísticas exibidas nesta mostra carregam de forma intensa a experiência de cada integrante do grupo”, explica o orientador. Como resultado da oficina, o público pode ver uma boa exposição, sem grandes ousadias, mas capaz de justificar as exigências da contemporaneidade e excitar a imaginação dos visitantes.

Cláudia e Nanna Possa são mãe e filha e ambas se dedicam à fotografia. Sutis como boas mineiras que são, interpretam o vazio de forma muito pessoal e independente uma da outra. Cláudia fotografa a incerteza das fendas, através de closes em buracos de fechaduras ou de muros, enquanto Nanna aproveita o momento do salto. Corpo em queda sobre o vazio.

Fabrício Branco utiliza ovos vazios e confere plasticidade a um objeto que já teve a sua utilidade. Desprovida do seu conteúdo, esvaziada, a casca do ovo perde a sua função, tornando–se “dispensável”. Para ele, o vazio não é dispensável e pode ser capaz de propor reflexões, afinal aquelas cascas de ovos, antes, protegiam uma vida. Outro trabalho de Fabrício é uma grande indoor retratando uma placa vazia. O artista mostra o instante de um espaço vazio a espera de um novo preenchimento. Fabrício é publicitário com larga experiência na área e estudos na School of Visual Arts em Nova York.

As fotografias de Gina Leite funcionam como poemas, naturalmente um resultado da sua formação literária. Imagens, lembranças, cores, contrastes e formas são apreendidas pelo instante da fotografia. A delicadeza, na maioria dos trabalhos apresentados, é um aspecto bem visível, inclusive na montagem da exposição.

No trabalho executado por Jovan Mattos, a delicadeza está ainda mais exacerbada. São desenhos que rompem limites do papel, ousam invadir a parede e impressionam o espectador por sua leveza e senso de equilíbrio. Luciano Freaza interpreta o vazio usando as possibilidades das novas tecnologias, colando na parede um grande desenho, com formas vazadas em preto e branco.

“Desejo compartilhar imenso vazio”. Com esse anúncio publicado durante alguns meses em jornais de grande circulação no país, e com um endereço eletrônico para receber as respostas, Marta Luna realizou um trabalho interativo bastante instigante. As respostas ao anúncio, tornadas anônimas, estão expostas no endereço www.servazio.blogspot.com.

A auto-referência foi usada por Silverino Ojú para conseguir o seu objetivo. Utilizando imagens sintilográficas do próprio corpo, o artista discute as possibilidades ocultas no seu interior. A impotência diante do poder das enfermidades ou a alusão ao invisível e oculto que habita dentro de cada um. Outro trabalho, em forma de quebra-cabeça, desafia o espectador a percorrer caminhos vazios e realizar o objetivo da proposta. Silverino, atento ao vazio provocado pelas incertezas, preenche um terceiro espaço, realizando uma proposta com uma placa de terra ressecada e a frase “coração é terra que ninguém passeia”.

Além dos trabalhos individuais, o grupo organizou, coletivamente, um livro no qual estão registradas outras criações realizadas. O livro, desenhado por Luciano Freaza, possui apenas um único exemplar e pode ser manuseado pelos visitantes. Quase todos os expositores já participaram de alguma exposição coletiva, nas nenhum expôs individualmente. Vale a pena visitar a mostra e verificar as infinitas possibilidades de interpretar o vazio.

1 Comentários:

At 13/9/06 14:38, Anonymous Nelson Magalhães filho said...

Ôi Nanna, muito legal este blog. Desejo muito sucesso para todos vocês. Vamos encher esse vazio absurdo com nossa arte. Beijos,
Nelson.

 

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